
Ontem assisti a duas entrevistas com mulheres fortes que me surpreenderam positivamente. A primeira, no Fantástico, com a polêmica Lea T, a transexual filha do ex-jogador Toninho Cerezo, que ganhou o mundo após virar modelo internacional. A segunda, com Bruna Surfistinha (ou Raquel Pacheco), conduzida pela sempre competente Marília Gabriela.
Demonstrando uma coerência tremenda da sua condição, de como está inserida na sociedade e do quanto ainda terá de batalhar para se firmar como mulher– para si e para os outros- , Lea T falou sem constrangimentos da época em que ainda era Leandro, de como foi a aceitação da família, da descoberta de que era uma mulher presa no corpo masculino e das dificuldades de relacionar-se desde então.
Deixou claras a insatisfação e a dificuldade que passa por se assumir transexual em uma sociedade tão preconceituosa. Falou de que não consegue se relacionar com homens por conta disso, que recorre à terapia para se aceitar e que penou muito para conseguir vencer profissionalmente em um mundo onde a transex ou é prostituta ou não tem chance alguma no mercado de trabalho.
Me chamou a atenção seu olhar triste, sem brilho, e o semblante sério de quem deu o primeiro passo, mas ainda não está tão pronto para seguir adiante. Apesar de segura e coerente nas respostas, Lea T me pareceu uma menina acuada diante da vida, como se vivesse ainda pela metade, apesar do atual sucesso profissional e da decisão de levar sua bandeira adiante.
Já Raquel, que há oito anos abandonou a profissão e a vida de Bruna Surfistinha para casar e se dedicar aos livros autobiográficos e eróticos, me surpreendeu pela segurança nas respostas. Com apenas 26 anos, demonstra uma maturidade sem igual ao lembrar dos três anos como garota de programa e projetar o futuro próximo, no qual se vê assumindo as funções de mãe e psicóloga, nessa ordem.
Fala com naturalidade que a rebeldia juvenil, somada ao gosto pela prática do sexo, a motivou a sair de casa aos 17 anos e partir para a “vida fácil”. Conta que chegava a ganhar R$ 500 por dia de trabalho e que graças à profissão conseguiu manter o padrão de vida que tinha como menina de classe média. Com uma certa mágoa, conta que não fala com a família- irmãs e pais adotivos – desde que revelou sua antiga profissão, que sonha em retomar o contato com eles e que conseguiu superar a drogadição e o estigma da rejeição, cedendo ao amor de um cliente, hoje seu marido.
Mostrando desenvoltura, inteligência e boa educação, as respostas de Raquel demonstram que os três anos em que dedicou-se à prostituição não foram penosos, como muitos pensam. Ela sabia que a profissão só seria um recurso a ser utilizado por período determinado e se orgulha de ter conquistado e experimentado tudo o que quis naquele tempo.
Aproveitando a proximidade do lançamento do filme que contará sua história, tendo Débora Secco como protagonista, Raquel desmistificou a imagem que fazemos da garota de programa que é vítima da falta de melhores condições de vida ou que recorreu a isso por não ter outras oportunidades. Apesar de nova, ela sabia muito bem o que estava fazendo e o que fez por três anos, e não se arrepende!
Valente e fiel a seus princípios, Bruna Surfistinha só manteve o clichê no final da história, ao se entregar ao happy end desejado por dez entre dez meninas que se prostituem, largando a profissão e se casando com um antigo cliente. Duas excelentes entrevistas com mulheres interessantíssimas e corajosas em suas escolhas! Boas para fazer pensar nos problemas que, vez ou outra, nos paralisam, sem tamanha necessidade!