segunda-feira, 12 de julho de 2010

Ingenuidade infantil


Não tenho filhos ainda, por isso acho sempre complicado opinar sobre a criação das crianças dos outros. No entanto, lendo uma reportagem da revista Época não pude deixar de pensar que, realmente, são os pais que estragam os filhos. A matéria relata que as crianças de hoje têm exigido verdadeiras festas de arromba de aniversário, deixando pais de cabelos em pé – e, na maioria das vezes, de bolsos furados.

Pelo que li, apenas mulheres jurássicas e ingênuas como eu ousam pensar ainda que para alegrar uma turma de infantes basta organizar uma festinha com mesa colorida repleta de brigadeiros, cachorros-quentes, bolo de chocolate e refrigerantes, meia dúzia de balões e lembrancinhas modestas. Não, hoje a criançada quer DJ, mágicos, malabaristas, maquiadores a postos e festas em salões e até em hotéis badalados.

Uma festinha básica dessas não sai hoje por menos de R$ 4 ou R$ 5 mil e a partir dos sete anos, garante a revista, as crianças já pensam em comemorar com baladinhas, com direito a globo de espelhos no teto, DJ tocando os hits da moda e lembrancinhas descoladas para não fazer feio com os amiguinhos. Gente, hello, em que mundo estou vivendo?

Tá certo que antes dos três anos as festas são feitas exclusivamente para marcar a data e para que os pais agradem a família e os amigos, uma vez que a criança-aniversariante não entende o que se passa e nem tem amiguinhos suficientes para encher uma mesa. Mas, a partir do momento em que as crianças passam a ter noção de que cada ano de vida merece ser celebrado, só cedem aos caprichos - e muitas vezes às exigências - dos filhos os pais que quiserem!

A sociedade de consumo chegou a um patamar inimaginável e quiçá irreversível! E a culpa de quem é? Exclusivamente nossa, dos adultos descontrolados!

Vejo crianças nos shoppings dando verdadeiros pitis diante de pais embasbacados, exigindo presentes, chantageando gente grande e abrindo o berreiro se não forem imediatamente atendidos. Isso me amedronta, não me imagino sendo coagida por um filho que ameaça gritar caso não ganhe um brinquedo.

Se hoje eu não teria condições de bancar uma festinha de R$ 5 mil sem me endividar, imagina quando meus filhos estiverem por aí. Sacrifícios para agradar os filhos compensam, claro, mas se envolverem gastos e escolhas ligados à educação, saúde, formação cultural, penso eu. Muitos podem dizer que falo isso agora, enquanto não tenho rebentos. Mas entendo que limites devem ser impostos em casa, e desde cedo, e que pais não precisam ceder o tempo todo para provar que amam seus filhos. Tomara que eu nunca morda a língua!

4 comentários:

Madame Mim disse...

Fernanda,
Tenho uma filha de 6 anos que ama festa como a mãe, ama as comemorações e faz questão sempre do seu aniversário rodeada de amigas. Porém sempre fomos muito "pé no chão" porque ora estamos bem, ora não, então ela sabe que um dia temos um carro e no poutro vai ser tranquilo andar de onibus e vamos ver o lado bom nisso...
Ganha presente somente em datas especiais, porque tem noção do que é possível e não...
Ela é uma menina fantástica, não reclama de nada e fica muito feliz com o bolinho e os brigadeiros, pois a levo em festas de 100,00 e também de 5000,00 - Ela curte ambas e sinceramente, nunca me disse que a de mais cara foi a melhor...
Concordo com vc que os pais são culpados sim! É nossa obrigação estabelecer limites e faze-los entender que o mundo não é um conto de fadas!
Muito legal a abordagem...E espero também que vc não morda a língua, precisa querer muito ser uma mãe fora das estatísticas!
Bjs

Márcia de Albuquerque Alves disse...

Oi Fernanda!

Menina que texto sensato!
É exatamente assim que estão as crianças. Também não tenho filhos, mas, vejo isso demais hoje em dias, inclusive com meus amigos que já são pais.
Acredito que o mundo está assim, mas, cabe a nós criarmos de acordo com a nossa condição, mostrando sempre o que é saudável, até o dia que ele não seja mais crianças e sigam seus rumos.
Concordo plenamente com você sobre os limites, e você não tem nada de jurássica, e se tem, somos duas. kkkk

bjs, amei o texto!

Alvaro Neto disse...

As coisas são mais simples do que parecem, basta ligar alguns pontos. Os livros de auto ajuda são os mais vendidos. Há uma ilha de lixo no pacífico. As pessoas tratam seus bichos de estimação como se fossem filhos. Em geral, estamos desorientados e perdidos em um ou outro nível. As crianças apenas acompanham os adultos em seu andar bizonho. Muito bom o post!

Marla Gass disse...

Olha, Fe, com certeza a bola tá conosco, que somos pais.
Minha filha tem 1 ano e 7 meses e já faz chantagem e birra.
Vou contar uma dela: estávamos indo de carro a Campo Bom para visitar uma amiga da família. Valentina não gosta de ir na cadeirinha. Aí, ela começou a dizer que estava com "dodoi no bubum" (ou seja, com assadura) para eu ficar com pena e levá-la no colo. Como eu sabia que não era verdade, pq tinha trocado as fraldas antes de sair de Porto Alegre, não cedi e mantive a mocinha no lugar. Mas ela já mente pra me convencer do que quer ANTES DOS DOIS ANOS!!!
Mas não dá pra ceder. Garanto que não é fácil, mas é necessário se queremos criar cidadãos de hábitos saudáveis - alimentares, de consumo, de relacionamento, de cultura -, que saibam conviver em harmonia, que sejam do bem.
Como disse a Andrea, tem que querer muito ser uma mãe fora das estatísticas mesmo. O lado bom é que só depende da gente.
Bjs